Arie Halpern

Presidente da Tonisity International

Segurança alimentar na pandemia: governo tem de garantir

O auxílio emergencial é uma boa medida, mas não basta. Há neste momento milhares de instalações completas de cozinhas industriais, paradas em escolas, clubes, empresas, órgãos de governo, igrejas. Por que não aproveitá-las para fazer chegar, neste momento, o alimento a quem precisa

Enquanto segue a corrida em busca de uma vacina comprovadamente efetiva para a covid-19, o melhor que podemos fazer é manter o isolamento social de forma a diminuir o ritmo de sua propagação, além, claro, de reforçar as medidas de higiene. Essas são as únicas precauções que temos à disposição, de acordo com os melhores centros de pesquisa do mundo. Dessa forma, de nada adianta desviar o foco e fazer de conta que a doença não é perigosa. Se a quarentena é o melhor que podemos fazer, isso significa simplesmente que ela tem de ser feita.

E para dê os resultados esperados, num país com a brutal desigualdade social como o Brasil, é preciso que haja um olhar específico para as populações mais vulneráveis. Somos a sétima nação mais injusta do mundo, a primeira delas fora do continente africano, segundo dados do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Para piorar, a crise econômica já vinha fazendo estragos mesmo antes da pandemia, com a massa de trabalhadores desempregados saltando de menos de 5% em 2014 para quase 12% no ano passado, com uma proporção de informais na economia passando de 40%. Nesse processo, a extrema pobreza subiu no Brasil, e já somava, em 2019, o maior nível da séria histórica, com 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com até R$145 reais, de acordo com o IBGE.

Foi neste cenário difícil que começamos a sofrer as consequências da covid-19, e é com ele que temos de lidar daqui para a frente. Assim, o governo deve ter protagonismo em lidar com firmeza com as questões de saúde, mas sem esquecer os aspectos sociais. Além das óbvias razões humanitárias, que vão valer a sobrevivência digna neste período difícil, esta é a melhor garantia que a sociedade tem de atingir os níveis mais adequados de isolamento social. Se não houver como proporcionar a subsistência das pessoas que vivem normalmente em dificuldades econômicas, não é justo esperar que elas se mantenham trancadas à míngua.

Nesse sentido, embora com problemas técnicos ainda a serem resolvidos, o auxílio emergencial de R$ 600 instituído pelo governo e pelo Congresso é uma boa medida. Mas ela deve ser acompanhada de uma preocupação mais específica, de atender a uma parcela da população que pode ter ficado fora do radar. Durante a pandemia, 51% dos brasileiros das classes D e E, com renda per capita de até R$ 500, perderam metade ou mais de suas rendas, em um contingente de 58 milhões de pessoas. Entre elas, 24% declararam ter ficado sem renda nenhuma, segundo uma pesquisa do Plano CDE, consultoria especializada em projetos sociais. Essas pessoas por vezes sequer reúnem condições para terem o seu direito assegurado, como uma conta bancária ou um celular ligado à internet para fazer um cadastro.

Nesses casos, a atuação tem de se multiplicar em outras frentes, utilizando-se de estruturas já existentes para garantir a segurança alimentar. Há neste momento milhares de instalações completas de cozinhas industriais, paradas em escolas, clubes, empresas, órgãos de governo, igrejas. Por meio de uma rede de doações e da própria atuação dos governos federal, estaduais e municipais, é urgente aproveitar essas opções para fazer o alimento chegar a quem precisa. E chegar pronto, já que não podemos esquecer que o gás de cozinha tem se tornado proibitivo para os mais pobres. Como benefício adicional, uma rede de solidariedade seria criada, com a participação de pessoas bem dispostas, das quais há muitas no Brasil, e que poderiam contribuir no momento mais difícil de nossa história.

O que não se pode admitir, de maneira alguma, são autoridades públicas minimizando a gravidade do que está ocorrendo. Se temos que pensar no futuro, e o faremos no momento oportuno, não é hora de deixar nem por um minuto de pensar nos mais vulneráveis do Brasil, que são muitos, e que não têm tempo para perder com as hesitações e incompetências de quem é muito bem pago para olhar por todos.

© Copyright - revistaalimentare.com.br