Segurança alimentar x segurança de alimentos

Segurança alimentar x segurança de alimentos

 

SEGURANÇA ALIMENTAR X SEGURANÇA DE ALIMENTOS

 

por Casiane Salete Tibola1 e Anderson Santi2

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Com a atual crise dos alimentos, estão em destaque questões relacionadas com a disponibilidade e a qualidade dos alimentos, portanto, para assimilar essas informações, deve-se considerar as diferenças entre as definições de segurança alimentar e de segurança de alimentos.

A segurança alimentar (do inglês Food Security) trata da implementação de políticas públicas para garantir o acesso da população aos alimentos em quantidade e qualidade adequadas. É norteada por questões de interesse globais como as mudanças climáticas, os biocombustíveis e a escassez de recursos naturais, destacando as possíveis implicações na produção e na disponibilidade dos alimentos para a população. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), a segurança alimentar existe quando todas as pessoas, em todo o tempo, possuem acesso físico e econômico à alimentação suficiente, saudável e nutritiva, para atender suas necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável. Considerando estatísticas da FAO, no mundo, aproximadamente 852 milhões de pessoas sofrem com fome crônica devido à pobreza extrema, e para dois bilhões de pessoas falta o acesso intermitente aos alimentos, devido aos vários graus de pobreza.

De acordo com a revista Veja (2008), a crise alimentar mundial é grave e, pela primeira vez em décadas, o número de pessoas que sofrem com a fome aumenta. A recente alta nos preços dos alimentos causou uma onda de protestos desde a África até a América Central. Foram relatadas revoltas populares para obter alimentos no Zimbábue, Mauritânia, Camarões, Costa do Marfim, Senegal, Coréia do Norte, Haiti, entre outros. A Organização das Nações Unidas (ONU), alerta os governos para que adotem medidas a fim de evitar que a alta global nos preços dos alimentos agrave o problema de desnutrição.

Atualmente, o crescimento demográfico aliado ao aumento de consumo em países emergentes como China e Índia, a conseqüente perda global de áreas agricultáveis por degradação e para atender a demanda do desenvolvimento residencial e industrial, a expansão dos cultivos destinados a fabricação de biocombustíveis e o temor associado aos cenários de mudanças climáticas têm contribuído para a elevação de preços e a restrição ao acesso da população aos alimentos. Tais inferências estão vinculadas ao contexto de segurança alimentar e, portanto, são freqüentemente inseridas na pauta de discussões de representantes dos diferentes países.

A discussão atual tem focado na utilização de expressiva área agrícola para a produção de biocombustíveis em detrimento da produção de alimentos. Exemplo disso é a utilização do milho nos Estados Unidos para a produção etanol que tem um peso negativo diante da atual inflação de alimentos, pois potencializa a demanda, gerando aumento dos preços do cereal. Com a estimativa de produzir 295 milhões de toneladas de milho em 2008 (38% do total mundial), o país transformará cerca de 20% desse total em etanol. Essa quantidade corresponde a 8% de todo o milho mundial para essa finalidade. No Brasil dos 355 milhões de hectares disponíveis para agricultura são utilizados 90 milhões e desses somente 7,2 milhões são utilizados para o cultivo da cana-de-açúcar que é a cultura base para a produção de biocombustíveis. A cana-de-açúcar brasileira possui alto rendimento e disponibilidade de logística e de tecnologia. As principais vantagens do etanol brasileiro obtido da cana-de-açúcar comparado com o etanol de milho dos Estados Unidos podem ser verificadas na Tabela 1.

Tabela 1 – Análise de rendimento comparativo entre o etanol obtido de cana-de-açúcar e de milho

Adaptado revista Veja (2008)

Além disso, no Brasil, quando considerada a utilização de outras culturas para a produção de biocombustíveis (soja, canola, dentre outras), também verifica vantagens como a possibilidade de incorporar novas áreas de cultivo de forma sustentável, sem competir com a agricultura de alimentos, o uso de múltiplos cultivos no ano, a localização geográfica (intensa radiação solar e diversidade climática), a possibilidade de irrigação em larga escala, atribuindo acentuada competitividade frente aos desafios impostos pelo mercado internacional de energia renovável. Somam-se ainda, os benefícios sociais, inerentes à cadeia dos biocombustíveis, potencializam a contribuição desses no equacionamento de questões fundamentais para o país, como a promoção da inclusão social de agricultores familiares, por meio da geração de emprego e renda resultante de seu engajamento na cadeia produtiva de culturas de bioenergia, o fortalecimento das fontes de energia renovável na matriz energética e a melhoria das condições ambientais, por meio da promoção do desenvolvimento sustentável.

Nesse sentido, a importância da agroenergia para a matriz brasileira de combustíveis deve ser norteada por definições de objetivos estratégicos nacionais de médio e longo prazos, que levem a um pacto entre a sociedade e o Estado, para que juntos promovam os seguintes benefícios: a redução do uso de combustíveis fósseis; a ampliação da produção e do consumo de biocombustíveis; a proteção ao meio ambiente; a ampliação da participação no mercado internacional; e, por fim, a contribuição para a inclusão social. Dessa forma, embora não seja afastada a necessidade do debate contínuo entre sociedade e governo visando o estabelecimento de políticas orientadas para o aprimoramento da produção de alimentos e também para que seja realizada em harmonia com a produção de culturas destinadas aos biocombustíveis, o cumprimento dessas etapas contribui positivamente para a promoção da segurança alimentar no Brasil.

Por outro lado, a segurança de alimentos (do inglês Food Safety), sinônimo de alimentos seguros, objetiva assegurar a qualidade nos produtos comercializados, garantindo que estão isentos de contaminantes biológicos, físicos e químicos no momento do consumo. Para garantir a segurança de alimentos devem ser implementados programas de gestão da qualidade, com abordagem sistemática baseada na prevenção e no manejo de contaminantes, objetivando a produção de alimentos seguros, a redução dos incidentes de origem alimentar e a minimização de perdas na cadeia produtiva. Os incidentes de origem alimentar mais comumente relatados são as infecções e as intoxicações. Define-se como infecção transmitida por alimentos a enfermidade que resulta da ingestão de alimentos contendo microorganismos, como Salmonella, Sigella e Escherichia. A intoxicação de origem alimentar ocorre quando as toxinas de fungos ou de bactérias estão presentes no alimento. Essas toxinas podem causar enfermidades, mesmo quando os microorganismos já foram eliminados, como exemplo podem ser citadas a toxina botulínica e as micotoxinas de Fusarium, Penicillium e Aspergillus. De acordo com registros recentes sobre segurança de alimentos, verifica-se que aproximadamente sete milhões de pessoas, em nível mundial, são afetadas todos os anos por doenças transmitidas e/ou veiculadas pelos alimentos.

milharalA preocupação com a qualidade e a inocuidade dos alimentos, abrange ações para desenvolvimento de métodos rápidos e eficientes para detecção e quantificação de contaminantes. Os contaminantes podem ser biológicos (microorganismos patogênicos); químicos (micotoxinas, resíduos de agroquímicos e metais pesados) e físicos (fragmentos de insetos, vidros, pedras e outros materiais estranhos). O manejo de contaminantes requer enfoque estruturado e sistemático, baseado em monitoramento e medidas de controle preventivas, na produção e na pós-colheita. Mesmo que não exista risco zero, é fundamental a soma de esforços para reduzir os contaminantes ao mínimo, adotando estratégias globais de segurança de alimentos centrada em normas alimentares e de higiene, baseadas nos conhecimentos científicos mais avançados. Dessa forma, a geração de informações sobre contaminantes, metodologias de monitoramento e de controle, e a implementação de processos que reduzam as perdas resultantes de sua contaminação são fundamentais para garantia da segurança do alimento disponibilizado para o mercado consumidor.

No Brasil a estimativa de perdas quantitativas de grãos armazenados, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), corresponde a médias anuais de 10%, podendo atingir perda total em algumas unidades armazenadoras. Os principais fatores que contribuem para a deterioração e a contaminação dos grãos são a alta umidade e a alta temperatura, que favorecem a proliferação de contaminantes como insetos-praga e fungos toxigênicos que produzem micotoxinas. Além desses contaminantes, destaca-se também, os resíduos de agroquímicos, que podem ser inerentes aos grãos na fase de produção ou de pós-colheita, chegando ao produto final. Dentre as dificuldades, destacam-se a carência de estrutura física para armazenagem, escassez de treinamento e de capacitação para colaboradores e a ausência de segregação dos produtos agrícolas, de acordo com sua qualidade tecnológica e inocuidade.

O manejo desses contaminantes demanda ações integradas, com a participação de toda a cadeia produtiva. Dentre os principais sistemas de gestão da qualidade para grãos podem ser citados: a produção integrada; o manejo integrado de pragas; as Boas práticas/Análises de Perigos e Pontos Críticos de Controle, a norma ISO 22000 – Sistemas de Gestão da Segurança de Alimentos e mais recentemente a Instrução Normativa nº 33, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que regulamenta a certificação de unidades armazenadoras. Esses sistemas objetivam garantir a disponibilização de alimentos seguros, através da identificação, do monitoramento e do manejo adequado de contaminantes em todas as etapas da cadeia produtiva. Esses programas são baseados em normativas reconhecidas internacionalmente, que possibilitam implementar sistemas de rastreabilidade e são passíveis de certificação para assegurar a conformidade do processo produtivo, em relação às normas técnicas estabelecidas, permitindo a comercialização de produtos com qualidade certificada, que atendam as atuais demandas de mercado.

Na Embrapa Trigo estão sendo desenvolvidos projetos na área de segurança de alimentos, destacando-se “Prevenção e manejo de contaminantes na pós-colheita de grãos e sementes de trigo, milho, soja e arroz para competitividade e sustentabilidade no agronegócio”; “Manejo integrado de pragas na pós-colheita para grãos e sementes”; e “Produção integrada de trigo no Brasil”, visando obter informações para suprir as lacunas no conhecimento na área de gestão da qualidade e manejo adequado de contaminantes nos grãos.

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(fonte: http://www.plantiodireto.com.br)
1Eng. Agr.ª Drª Pesquisadora da Embrapa Trigo – Área Controle de qualidade, certificação e rastreabilidade
2Eng. Agr. M.Sc. Pesquisador da Embrapa Trigo – Área Mudanças climáticas

 

 

 

 

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A Revista ALIMENTARE – Com o foco na Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos e Bebidas (GQSAB) - é direcionada para profissionais, especialistas, pesquisadores e dirigentes da Cadeia Produtiva de Alimentos e Bebidas: Indústria de Alimentos & Bebidas, Food Service e Varejo de Alimentos. Tem como missão levar aos leitores as informações mais atualizadas e confiáveis, que possam contribuir para o melhor desempenho e competitividade dessas atividades.

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