FLV IV Gama: carece de regulamentação

FLV IV Gama: carece de regulamentação

 

FLV IV Gama: tudo a ver com uma alimentação saudável

 

Categoria que a cada dia cresce nas gôndolas refrigeradas dos supermercados e atende as necessidades do food service ainda não conta com uma legislação específica.

  • evolução da categoria
  • pesquisas e tecnologias
  • conquistar a confiança do consumidor
  • FLV IV: falta legislação para dar um norte ao segmento

O FLV IV Gama representa a cadeia produtiva de FLV minimamente processados – higienizados e embalados – prontos para o consumo, com vistas a uma alimentação saudável, foi o tema central do II Workshop Brasileiro FLV IV Gama, organizado pela VegQuality, em São Paulo, no mês de agosto.
Essa cadeia representa uma das poucas cadeias produtivas de alimentos que registra uma expansão contínua nos últimos anos e ainda tem grande potencial de manter esse crescimento no futuro, destaca Roseane Bob, diretora da empresa que organizou o evento.

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Roseane ressalta a falta de normas específicas

“Vale notar que a preocupação com a qualidade e segurança dos FLV já tem sido objeto de estudos e pesquisas científicos, divulgados em publicações científicas, como a revista Higiene Alimentar”, nota o professor José Cezar Panetta, diretor dessa revista.

Esse segmento, junto com a produção intensiva de alimentos, está sendo focado sob um novo olhar: o da saudabilidade dos alimentos. Acresce-se também sob uma visão de produção sustentável. Sobretudo discute questões relacionadas com a preocupação quanto ao uso excessivo de agrotóxicos.

“Esse é um grande problema que precisa ser muito amplamente discutido, pois implica diretamente na saúde da população”, enfatiza Panetta, observando ainda que outros fatores impõem aos produtores e processadores de alimentos novos desafios: evitarem-se os desperdícios de energia e de água.
Em relação aos FLV IV Gama, nota-se que sua expansão só se consolidará com base em pesquisas e novas tecnologias. Ou seja, de novos produtos, novos defensivos agrícolas, novas formas de produção. “Agora, é momento de o setor discutir todas essas variáveis, visando a que os produtores e processadores otimizem suas operações e contem com uma legislação específica, para que possam garantir ao consumidor alimentos de qualidade e seguros”, avalia o professor.

Panetta nota que os mesmos questionamentos foram feitos às cadeias produtivas de proteína animal, carne e leite, em que se mudou a forma de produção, com o foco no bem-estar animal, controle e uso racional de antibióticos e antiparasitas, por exemplo, vêm sendo feitos ao setor de produção vegetal.
Ele torna a reforçar sua visão de que a saída para superar os problemas que se levantam hoje é a pesquisa. “Só ela poderá apontar caminhos para reduzir custos, elevar a produtividade, uso racional de insumos, o emprego correto de novas tecnologias, de modo a não causar danos ao meio ambiente e produzindo alimentos seguros e de qualidade”.

Mais informações para conquistar a confiança do consumidor

Para Roseane Bob, duas questões importantes se colocam quando se trata da categoria FLV IV Gama. A primeira diz respeito à confiança do consumidor do produto FLV IV Gama, pois faltam informações sobre o produto.
É muito comum nos supermercados, que na mesma gôndola refrigerada de frutas, legumes e verduras in natura minimamente processados (higienizados e embalados) e prontos para o consumo estejam FLV apenas porcionados e embalados (sem higienização), não prontos para o consumo. “Isso gera confusão no consumidor e até mesmo desconfiança quanto aos produtos FLV IV Gama, pois ele não sabe como identificá-los. Acaba que o consumidor se vê obrigado a higienizar esses produtos novamente em casa por não confiar neles”, adverte Roseana Bob.

FLV IV GAMA: FALTA UMA LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA PARA DAR UM NORTE AO SEGMENTO

A segunda, está relacionada à falta de uma legislação específica para a processamento desses produtos. Os técnicos, empresas processadoras e especialistas da alimentação precisam dispor de uma regulamentação, de parâmetros e de tecnologia especial para garantir a segurança desses alimentos. “Trabalhar com produtos in natura minimamente processados é diferente de trabalhar com FLV numa cozinha industrial, para a qual a legislação preconiza lavar folha a folha, criteriosamente e enxaguar. Isso não se aplica ao minimamente processado, pois são processos diferentes de higienização”, explica Roseane Bob.

Por isso, é fundamental contar com uma legislação específica, com novos parâmetros e regulação para essa modalidade, inclusive quanto ao tipo de embalagem mais adequada para esses produtos. Os profissionais, que atuam na parte sanitária dessa indústria, não dispõem de parâmetros específicos para isso.
Para Roseane, é fundamental um esforço de empresários, profissionais, técnicos, academia, governo para debater e estabelecer esses novos parâmetros e uma regulamentação específica para os FLV in natura minimamente processados, cujo mercado vem crescendo significativamente. Inclusive colocar nessa pauta a capacitação dos produtores de frutas, legumes e verduras.

É preciso que equipes multidisciplinares pensem e debatam tais questões desde o campo à mesa dos consumidores. Precisamos de protocolos, de parâmetros e padrões microbiológicos para esses produtos, de modo que se tenha um norte para esse trabalho. “Há urgência de dispormos dessas normas, face o consumo cada vez maior desses produtos para atender à demanda de um novo estilo de vida das populações urbanas, que exige praticidade, qualidade, saudabilidade e segurança nos produtos que consomem”, enfatiza ela.

NOVAS TECNOLOGIAS PRECISAM SER AUTORIZADAS PELA ANVISA

A cadeia do frio também é outro item muito importante para a manutenção da qualidade desses produtos, que contribuem para o aumento do shelf life e evitam perdas, destaca o professor Panetta, acrescentando que a revista Higiene Alimentar, traz em seu número mais recente um artigo sobre a questão do custo de hortaliças folhosas minimamente processadas.

“É um artigo muito esclarecedor sobre esse segmento, mostrando seus benefícios (praticidade, redução de mão de obra, de gastos de energia e água, muito maior aproveitamento do produto”, nota ele, acrescentando que isso significa menos desperdícios e perdas, entre outros) para a cadeia de alimentação (restaurantes, redes de food service, cozinha industrial, bares e para o próprio consumidor), além do potencial de mercado desses produtos diferenciados.

Uso do cloro – A recomendação é o uso desse produto por 30 minutos nas hortaliças e legumes para garantir a desinfecção. No geral, usa-se o produtor por cerca de 10 minutos e em certos casos por menos tempo ainda. Ou seja, o produto sanitizante não age como deveria e preconiza a legislação.
Eneo Alves da Silva, diretor do CDL – Central de Diagnósticos Laboratoriais e consultor da Anvisa, abordou a questão dos desinfetantes (sanitizantes) permitidos para essa categoria de alimentos. Ele informa que os únicos aprovados são cloro orgânico e o cloro inorgânico. “É necessário que a legislação brasileira reconheça outros produtos. São precisos dois requisitos para obter essa aprovação. Primeiro, a comprovação científica, feita por laboratório credenciado pela Anvisa; segundo, com esse documento entrar com a solicitação no órgão do Ministério da Saúde”, explica, observando que daí entra-se nos trâmites, cujo prazo para uma posição quanto à solicitação não há previsão.

Por isso, que cada segmento precisa se organizar para ter força de colocar suas questões em discussão e isso deve ser feito inclusive com os representantes de órgãos públicos correspondentes.
Numa palavra: é preciso a conjunção de esforços entre empresas privadas, profissionais da área, entidades representativas, a academia e representantes desses órgãos públicos, para se chegar a consenso técnico e científico que atenda às demandas específicas de cada segmento da cadeia produtiva de alimentos. “Assim, se terá uma legislação, com regulamentos claros e específicos que orientarão o desenvolvimento e ações de produtores, processadores, distribuidores, de modo a garantir alimentos seguros para a população”, assinala Silva.

É preciso ressaltar, quando se trata de FLV, que as cadeias de cada produto vegetal, por exemplo, não são iguais: a beterraba não é igual à alface. Ou seja, a cadeia de produção de uma é diferente da cadeia de produção da outra. Por isso, é fundamental trazer informações para que essa cadeia possa ser melhor organizada, pois isso também está faltando nesse segmento.

GARANTIR A SEGURANÇA DO ALIMENTO PARA EVITAR RISCOS À SAÚDE DO CONSUMIDOR

A água é outro fator que merece um rigoroso cuidado e controle da qualidade da água usada na lavagem dos produtos minimamente processados, assim como com a higiene e sanitização dos utensílios empregados utilizados. Como se sabe, a água é um veiculador universal de doenças. Descuidos nesse processo eleva perigosamente o risco de contaminação, que pode provocar no consumidor doenças infecciosas ou parasitárias.

Panetta alerta para os riscos de contaminação

Panetta alerta para os riscos de contaminação

O professor Panetta observa que, do ponto de vista das infecções são muitas por bactérias, fungos, rickettsias. Uma doença que vale destacar, que nos assola atualmente – e isso vem de muito tempo, o que é até uma vergonha para o Brasil -, é uma parasitose: a cisticercose neurocebral, que se transmite (os ovos de tênia – Taenia solium) através da água poluída, que eventualmente serviu para irrigar os vegetais.
“É importante marcar esse fato porque essa parasitose é milenar no mundo, mas no Brasil é apenas uma questão higiênica, que não foi resolvida até hoje. Ainda temos muitas pessoas contaminadas, inclusive com gravames bastante intensos, quando ocorre a cisticercose neurocerebral”, alerta ele.

Isso tudo remete para as questões de desinfecção desses vegetais para o consumo. Ou seja, quais são as substâncias utilizadas na lavagem desses vegetais para tentar descontaminá-los, de modo a evitar que possíveis ovos viáveis de tênia, eventualmente presentes nesse alimento, sejam ingeridos pelo consumidor. Essas substâncias utilizadas para descontaminação são eficazes? Estão registradas para seu uso nos FLV IV Gama? Passaram por um crivo de pesquisas que realmente comprove sua eficácia? questiona Panetta. “É necessário que tenhamos tudo isso em mãos se quisermos evoluir nesse segmento. Vamos dizer são gargalos que devem ser resolvidos”.

São pontos fundamentais para a evolução desse segmento, dentro os quais destaco a questão cisticercose, que merece toda a atenção de que lida com alimentos, sobretudo com os minimamente processados. É preciso garantir ao consumidor a segurança desse alimento.

Para ele, essa questão da saúde pública atua como uma das amarras que seguram um pouco o desenvolvimento desse segmento. “Se não dermos confiança aos consumidores, ele não volta. Vê-se muito a dona de casa comprar, por exemplo, couve já cortada, embalada, mas ao preparar o alimento ela o lava novamente, pois não confia na higiene e sanitização do produto”, observa, destacando que ou o segmento resolve as questões citadas, para garantir e ganhar a confiança do consumidor quanto à segurança do produto, ou o consumidor não vai se acostumar com tais produtos.

Agrotóxicos – Outra questão fundamental para esse segmento são os resíduos dos defensivos agrícolas ou agrotóxicos, como querem outros. Por isso, é muito importante as parcerias, os debates com diferentes especialistas, ouvir todos os lados da questão. O professor enfatiza ainda a necessidade de se desenvolverem pesquisas para esclarecerem as dúvidas. Pois é com base nesses conhecimentos que o setor tem condições de avançar para assegurar alimentos seguros.

Por exemplo, discussões com o setor de defensivos agrícolas para esclarecer uma série de questões e preocupações dos consumidores, dos produtores, dos processadores, dos profissionais de nutrição e saúde.
Todo esse movimento – da água de qualidade, eficácia das substâncias sanitizantes e análise de resíduos tóxicos nos alimentos – vai desaguar na busca de uma legislação pertinente, pois não existe legislação para os FLV IV Gama. Assim, fica impossível um determinado segmento se não contar com uma legislação, para dar um norte a suas ações, processamentos dos produtos.

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É fato que hoje ninguém duvida da necessidade de uma alimentação saudável, na qual se encaixam a categoria dos FLV in natura minimamente processados. Daí que faz dele um segmento em expansão e com grande potencial de crescimento, de inovações para conquistar os consumidores. Porém, ainda se ressente de um apoio técnico maior por parte do governo e da própria academia, além de falta de pesquisas sobre os mais diversos aspectos relacionado ao segmento.

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A Revista ALIMENTARE – Com o foco na Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos e Bebidas (GQSAB) - é direcionada para profissionais, especialistas, pesquisadores e dirigentes da Cadeia Produtiva de Alimentos e Bebidas: Indústria de Alimentos & Bebidas, Food Service e Varejo de Alimentos. Tem como missão levar aos leitores as informações mais atualizadas e confiáveis, que possam contribuir para o melhor desempenho e competitividade dessas atividades.

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