Entrevista: Giampaolo Buso

Entrevista: Giampaolo Buso

 

RASTREABILIDADE:giampaolo entrev esta

maior confiança entre os elos da cadeia produtiva de alimentos – do campo à mesa do consumidor

 

Giampaolo Buso há anos atua na área de rastreabilidade e segurança de alimentos. É diretor comercial da empresa PariPassu e tem desenvolvido e participado de projetos, como: Programa de Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos – RAMA, da Associação Brasileira de Supermercados-ABRAS; Programa Alimento Sustentável – PAS. O RAMA inspirou-se no pioneiro programa de rastreabilidade de alimentos da Associação Catarinense de Supermercados (Acats). O programa da Acasts  recebeu o reconhecimento da FAO/ONU, por meio da Plataforma Rede Sustentável    (http://www.boaspraticas.org.br/index.php/pt/).

Nesta entrevista exclusiva, Giampaolo discorre sobre a importância da rastreabilidade como uma ferramenta indispensável para um eficiente programa de Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos.

Alimentare – Como você avalia a evolução e importância da Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos e Bebidas-GQSA, e dentro desse conceito a rastreabilidade?

Giampaolo Buso – No ano passado, o tema central da OMS para a comemoração do dia do alimento foi “Do campo à mesa, obtendo alimentos seguros”, que apontou a importância de cada elo da cadeia em se responsabilizar pela forma como produz ou manipula alimentos.

Os controles que levam a um processo de rastreabilidade é que garantem a possibilidade de identificação dos pontos críticos de cada etapa. Porém, para tanto, é essencial o engajamento colaborativo de todos, produtores, distribuidores e varejos. Qualquer inconsistência de qualquer parte compromete o todo. Apesar do aumento da complexidade dos diversos processos (indústria, logística, comercialização), os conceitos dos controles mantém-se os mesmos.

A rastreabilidade do alimento é a solução prática para a identificação dos produtos: sua origem, o caminho percorrido e os processos associados a este caminho. Ou seja, do produtor ao consumidor, o que houve com o alimento ofertado ao consumidor. É um caminho de transparência entre as partes, gerando qualidade e confiança, nos produtos e relações, respectivamente.

Alimentare – Resumidamente, o que é a Rastreabilidade e sua necessidade dentro de um programa de Segurança dos Alimentos?

Giampaolo – De acordo com Spers (2003), enquanto  segurança   alimentar (food security) está relacionada à confiança do consumidor em receber uma quantidade suficiente de alimentos para a sua sobrevivência, segurança do alimento (food safety)  significa a confiança do consumidor em receber um alimento que não cause riscos à sua saúde. Um sistema de rastreabilidade é um instrumento para atender aos requisitos de segurança e qualidade dos alimentos, que auxilia no cumprimento da legislação e colabora para a maior confiança entre todos os elos da cadeia de abastecimento (produtor, processador, distribuidor, varejo e o consumidor final).

Dentro da lógica de segurança do alimento, a rastreabilidade apoia no monitoramento do alimento, possibilitando a identificação precisa de problemas e a sua correção através de ações como a orientação às boas práticas agrícolas. Com o monitoramento e as ações de correção, o alimento rastreado contribui para a confiança no alimento que está sendo consumido, o que na prática é a base para a segurança do alimento.

Alimentare – Os instrumentos para a garantia da qualidade segurança têm acompanhado a evolução do mercado de alimentos e as mudanças no mundo contemporâneo?

GB –  É interessante que 80% das atuais ofertas de variedades de alimentos, não existiam há 100 anos (fonte: Larry Mccleary -foodtank). É necessário pensarmos em soluções para esta rede de empresas e pessoas para evitarmos situações como a transmissão de doenças e o uso indiscriminado de substâncias indesejadas para a saúde humana.

Outro fator importante é o processo acelerado de urbanização, ou seja, o crescimento dos centros urbanos e o impacto nos hábitos de consumo da sociedade. Com a maior demanda por alimentos perecíveis em food service e nos supermercados, o desconhecimento da origem e da qualidade do alimento consumido precisa ser revertida para a valorização do trabalho e alinhamento das expectativas, por exemplo, com épocas de disponibilidade do alimento, qualidade, sabor etc.

Alimentare – A rastreabilidade impõe-se então como uma ferramenta indispensável para a confiança do consumir quanto a segurança do produto que adquire…

Giampaolo – Se bem orientada, a rastreabilidade permite um mínimo de aproximação entre produtor e consumidor, utilizando a tecnologia da informação como ferramenta de contato. Precisamos empoderar o consumidor com o seu direito à informação. Afinal, todos somos consumidores. A lógica de rastreabilidade, no formato colaborativo, vale para qualquer segmento, não sendo diferente para a cadeia de alimentos ou bebidas.

Alimentare – Que segmentos da produção de alimentos estão mais avançados?

Giampaolo – Existe uma correlação direta entre nível de conhecimento e exigência dos participantes. Os países do Continente Europeu e os Estados Unidos são mercados mais maduros e demandadores dos conceitos que estamos trabalhando no mercado nacional. No entanto, a velocidade de aquisição de conhecimento é muita rápida e experimentamos, seja como empreendedores ou como consumidores, a possibilidade exigir qualidade do produto e da informação. A indústria, normalmente, tem maior agilidade na adoção de tecnologias. O setor primário responde mais lentamente, não por limitação tecnológica, mas por barreira cultural.

Alimentare – Como superar esses gargalos da barreira cultura?

Giampaolo  – Temos que investir em educação na base da cadeia de suprimento para, a partir de uma boa matéria prima, darmos continuidade à agregação de valor. Vale observar que os segmentos que exportam alimentos estão mais bem preparados devido à exigência dos seus clientes compradores. A regra de que quanto maior a exigência do comprador, maior é o esforço na entrega da qualidade do produto e do serviço, é verdadeira e ajuda a imprimir um ritmo de eficiência para a competitividade das empresas.

Alimentare – É fundamental buscar maior proximidade entre produtores e consumidores?

Giampaolo – Quanto mais próximos estivermos do mercado consumidor final, maior a velocidade exigida para o atendimento de requisitos diversos. Estamos focados em trazer o produtor para a cidade e a cidade para o campo, usando tecnologia, e assim, facilitando a comunicação para redução dos gargalos de entendimento. Nosso foco é mostrar ao campo seu valor!

Alimentare – Como você vê a adesão e/ou compromisso das empresas de alimentos com as questões GQSA. Elas atendem às exigências dos consumidores? Estão compromissadas realmente (ou há aquelas que entram na onda por uma questão de marketing ‘pra inglês ver’)?

Giampaolo – Existe sempre todos os tipos de empresas. Mas, particularmente, acredito que as empresas genuínas em seu propósito construtivo para a sociedade é que terão destaque e têm possibilidade de perenizar. O espaço para manobras de marketing de ilusão está reduzido. As mídias compartilhadas aumentam o poder de fiscalização da sociedade, do consumidor, seja ele qual for. Criar “personas” para situações variadas gera um risco de autenticidade e de idoneidade perigosos. O Brasil ainda tem, culturalmente, a tentação de usar destes artifícios, porém, a mudança é real e atual.

Alimentare – Qual a importância de as empresas da Cadeia Produtiva de Alimentos implantarem sistemas de rastreamento dos alimentos que produzem e comercializam?

Giampaolo – Ao adotar controles registrados, como a rastreabilidade, a empresa gera a possibilidade de ter indicadores.  A rastreabilidade é o passo inicial para a sequência de atividades necessárias aos processos das empresas. Sem registro não se tem memória. Sem memória não transmitimos a história. Precisamos de boas histórias. Precisamos de bons alimentos com boas histórias. Histórias de pessoas para pessoas!

Alimentare – Quando se deve implantar um sistema de rastreabilidade (condições da empresa e em que momento)?

Giampaolo – Não existe um momento ideal. Existe a vontade de querer organizar seus processos. Particularmente, acredito que estes próximos anos exigirão muito controle para um resultado efetivo da operação das empresas. Existe uma pressão legal, comercial e de processo que a rastreabilidade pode ajudar a atender. Envolva os técnicos da empresa e avaliem uma implantação em etapas, contemplando os pontos principais para o sucesso da organização.

Alimentare – Tecnologias associadas à Rastreabilidade que já estão disponíveis para garantir todas as informações ao consumidor?

Giampaolo – A inserção de códigos bidimensionais, ou seja, o QR CODE nas rotulagens permite que qualquer pessoa possa consultar a origem do produto que está consumindo. A PariPassu está desenvolvendo um projeto para permitir o acesso a mais informações como certificações, análises e auditorias. O objetivo é que o consumidor tenha visibilidade do produtor/distribuidor e certeza de que está fazendo a melhor escolha no setor de frutas, legumes e verduras (FLV), no ponto-de-venda.

Alimentare – Que orientação você gostaria de deixar para nossos leitores (que são os profissionais que atuam nas indústrias de alimentos, food service e varejo)?

Giampaolo – Temos uma grande tarefa e desafio que é explicar às novas gerações a importância de um alimento de qualidade, que nutri o organismo e mantém os recursos naturais de forma sustentável. Os profissionais envolvidos no segmento de alimentos precisam se dedicar a compartilhar o conhecimento.

 

Sobre o Autor

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A Revista ALIMENTARE – Com o foco na Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos e Bebidas (GQSAB) - é direcionada para profissionais, especialistas, pesquisadores e dirigentes da Cadeia Produtiva de Alimentos e Bebidas: Indústria de Alimentos & Bebidas, Food Service e Varejo de Alimentos. Tem como missão levar aos leitores as informações mais atualizadas e confiáveis, que possam contribuir para o melhor desempenho e competitividade dessas atividades.

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